Deixar de fumar

Parar de fumar: As primeiras 72h!


Nasci em Outubro de 1969. Fumei desde os 15 anos, mais coisa menos coisa, parei de fumar no dia 27 de Setembro de 2015 (às 15h). Números redondos, são 30 anos a fumar, cerca de 20 cigarros por dia.

Este texto é sobre essa minha relação com a nicotina, alcatrão e uma série de químicos que desconheço de nome, mas que sei que estão nos cigarros que fumo. Já parei de fumar algumas vezes no passado, sei o que me custa parar, sei como é fácil voltar a fumar.

Eu não me preparei para deixar de fumar. Não marquei uma data. Não escolhi o dia. Não esperei por acabar a caixa de Marlboro. Estava a almoçar com a minha mulher, achei que deixar de fumar era uma ideia interessante, a propósito de coisa nenhuma que me recorde.

Tenho 3 isqueiros e 3 caixas de 20 cigarros novas na secretária. Não vou recorrer a truques, tipo afastar todas as tentações, pedir ao mundo para não fumar ao pé de mim, tomar nicotina em adesivos ou pastilhas. Sou eu e tu dona nicotina, bora lá a a isso, a ver quem ganha… let's dance!




As primeiras 24 horas...


A imagem é de uma app:
Meu último cigarro - Pare e não volte a fumar - Mastersoft Ltd
que instalei no iPhone. A app mostra um contador de minutos desde o meu último cigarro, ilustrando os benefícios para a saúde relacionados com a minha abstinência de fumar.

2h
Aparentemente os níveis de monóxido de carbono e nicotina no meu organismo descem depressa. Calculo que à medida que vai baixando nível de nicotina vá aumentando a minha vontade de fumar. É a parte que não tem piada nenhuma do processo... enfim.

Eu já passei por isto no passado, e sei a receita para parar. Primeiro há que tomar a decisão de parar. Não é a decisão de "querer parar" um dia destes. É a decisão de parar, já, de vez, agora. Depois disso é tudo simples, mas penoso, e que implica um compromisso com a decisão tomada:

1- Não há mais nenhuma passa... não há excepções. Não há cá terapias "soft" de ir progressivamente fumando menos até ao dia de parar. Custa, mas funciona parar "cold turkey". Todas as minhas tentativas "progressivas" não funcionaram, foram mais penosas, e a abordagem "penso rápido" funcionou sempre melhor.

2- Não há batotas, pastilhas de nicotina, cigarros electrónicos, nada. Ou é para fazer ou não é. Os primeiros dias são chatos, isto não é propriamente heroína ou álcool, em que as paragens súbitas e descontroladas são acompanhadas de desequilíbrios físicos que são potencialmente letais. É uma guerra pessoal, interna, de vontades, a de fumar e a de não fumar.

3- Vai apetecer fumar. Ou se quer parar ou não se quer. Quem quer mesmo parar não fuma (não mete o cigarro na boca). Custa. Paciência, há muita coisa que custa na vida, e quem quer essas coisas tem de pagar o preço.

4 - Não vou deixar todos os meus vícios ao mesmo tempo (e alguns não quero deixar de todo). Vou continuar a beber café. E sim, vai apetecer mais fumar nessas alturas. Paciência. Eu não me vou esquecer que fumar é apetecível para quem está a em défice crónico de nicotina, e andar a trocar café por chá, "por causa da associação" do café ao cigarro. Isso a mim não faz nenhum sentido. "Esquecer" não faz parte do processo de eu largar um vicio. É ao contrário, é lembrar que se tem um problema com a nicotina que ajuda a lidar com ele.

5- As pessoas à minha volta não fazem parte deste processo. Parar de fumar não me dá o direito de me portar com um cretino, de libertar a minha frustração com a privação dos cigarros, nem de obrigar as pessoas à volta a envolverem-se. A decisão é minha. Pessoal. Não é para partilhar. Não há parceiros ou aliados externos nessa luta interna de vontades. A história de anunciar aos sete ventos que se deixou de fumar, porque a "vergonha de recair ajuda" é próprio de pessoas muito fraquinhas e impressionáveis com a opinião dos outros. A mim isso não ajuda puto, não me podia estar mais marimbando para a opinião dos outros sobre o meu consumo de nicotina, alcatrão e mais "sabe-se lá o quê" que a Marlboro mete nos cigarros. Já eu portar-me um idiota, mais ainda que o costume, por estar a deixar de fumar, é algo que me desagrada e que preciso de ter muito presente para evitar. Tenho de ter um controle mais consciente sobre os meus humores durante estes dias.

Como lidar com a vontade "incontrolável de fumar"? De frente! Não vou fumar. Simples. E agora se não estivesse parvinho por causa da privação da nicotina o que é que eu iria querer fazer "a seguir" a inalar minha "dose"?

As tácticas de fazer coisas "substitutas" para quando me apetece fumar, tipo ir dar uma volta, ou fazer ginástica, etc... não funcionam. Tenho de trabalhar, tenho coisas que quero fazer, já agora uma delas é não fumar, e não faço tenções de me enganar a mim próprio relativamente ao que me está a fazer sentir "desconfortável" ou "impaciente". Eu sei o que é: privação de nicotina. Aguenta, não chora.

Essa vontade diminui com o tempo, nunca passa totalmente no meu caso, não faço puto de ideia se com o resto do mundo é igual. Já voltei a fumar depois de anos de abstinência. É crónica a minha vontade de fumar, umas vez mais forte, outras vezes mais fraca, mas está lá, à espera da oportunidade para voltar ao meu vicio. E porque voltei a fumar não quer dizer que "falhei", posso sempre parar outra vez. A pessoa a quem mais deve interessar essa relação com as tabaqueiras é a mim próprio...

Entre as minha desculpas preferidas que as pessoas arranjam para falharem, perante elas próprias e terceiros, é que não podem parar de fumar "agora" porque "afecta" o trabalho, ou "a relação" com alguém, ou seja lá o que for. Isso são raciocínios de quem não quer parar. Como se estragar as férias fosse "melhor" que lidar com o incomodo da privação, ou esperar que a relação que não se quer estragar acabe fosse uma boa ocasião para "deixar de fumar"... Ou se quer parar, ou não se quer parar. Muita gente não quer, porque lida mal com o desconforto que a privação da droga causa, e prefere as vantagens do consumo com todas as consequências a ele associadas. São opções pessoais e não são opções fáceis.

Querem inspiração para lidar com "o desconforto"? Sugiro vivamente que leiam o "The heroin diaries" (Nikki Sixx) - http://amzn.to/1MSavjE - que descreve o processo infinitamente mais complicado de lidar com a dependência de heroína. Deixar de fumar é substancialmente mais confortável... Aproveitem e conheçam Sixx A.M. (banda sonora do livro, literalmente) - http://amzn.to/1jnMJ2i - que é brilhante.

10 horas depois de deixar de fumar, começam a baixar os níveis de nicotina no sangue

Eu fumei o meu ultimo cigarro depois do almoço. É na hora de me deitar, quase dez horas depois, que sinto maior vontade de fumar... Os níveis de nicotina no meu organismo estão 20% mais baixos que o "normal" e o meu cérebro começa a reclamar vivamente...

Going to bed…. zzzzzzZZZZZZZ… waking up…..


18h depois de deixar de fumar: quase sem monoxido de carbono

Ao acordar, a primeira coisa que fazia era tomar um café e fumar um cigarro. O melhor café e cigarro do dia. Hoje é diferente. O café continua bestial...

Bom, é dia de trabalho, a vontade de fumar vai ser grande, à medida que os níveis de nicotina no meu organismo baixam e o cérebro pede para serem restabelecidos. Os primeiros dias são particularmente chatos. Há que conseguir fazer o trabalho, não é suposto notar-se nenhuma diferença no meu comportamento e desempenho.

Os níveis de monóxido de carbono baixam para o normal (de um não-fumador) ao longo do dia de hoje (depois de 24h sem fumar)...

24h depois de deixar de fumar

A imagem é de uma segunda app:
Smoke Free - Quit smoking now and stop for good - David Crane

Quase 24h depois, os níveis de nicotina estão a sensivelmente metade, quanto mais baixos maior a sensação de apetecer fumar, só vai continuar a piorar nas próximas 24h. Estas primeiras horas foram más e só vai piorar, até ao momento em que começa finalmente a melhorar. Quando é que isso acontece? Quando os níveis de nicotina chegarem a zero (48h depois de parar) e a minha vontade de os repor for diminuindo (fumar é isso; repor níveis de nicotina em que se está viciado).



Exercício físico


Uma das (poucas) coisas que me dá algum prazer, no meio do sacrifício que representa fazer o desmame da nicotina, é ir ver a minha resistência física a aumentar. Fazer exercício ajuda a diminuir a vontade de fumar.

No primeiro dia, fiz dois blocos de exercício:

- 1 km a correr (neste caso a arfar, andar para recuperar o fôlego, e a voltar a correr novamente). 1,02 km em 9:32 minutos.

- 1000+ passos a passear o meu cão, a brincar com ele, com pausas ocasionais para ele cheirar "coisas"... 1050 passos durante 14:38 minutos







A caminho das 48h e nível "zero" de nicotina


33h horas depois de deixar de fumar

É descer a pique na montanha russa, até atingir o ponto mais baixo, mais difícil, que mais custa. A nicotina vai baixando... a vontade de fumar ("cravings") permanece no máximo! As primeiras semanas são particularmente duras, mas a vontade de fumar eventualmente vai diminuindo...


zzzzzzZZZZZZZZZZZZZ

O meu sono durante a noite em gráfico

44h


Noite mal dormida. Estou quase sem nicotina no organismo. Não sei se há um nexo de causalidade. Não interessa...

Interessa neste ponto no tempo perceber que isto é "o pior" que se vai estar no que respeita à vontade de fumar. Durante algum tempo (semanas) esta "intensidade" com que se deseja fumar não desaparece. O que passa é a ser "esquecida" mais vezes, quando regressa "incomoda na mesma" (e com a mesma intensidade), mas à medida que o tempo passa sucede menos vezes.



Fui descobrindo pequenas receitas para lidar com a vontade de fumar...

Pessoalmente os momentos que me custam mais são os de tensão e ansiedade (reuniões, gestão de pessoas e processos que estejam a correr mal, etc). O cigarro fazia o papel do veículo para o "espera, pára, pensa". Passei a fazer pequenos exercícios respiratórios (i.e. respirar fundo meia dúzia de vezes) antes de lidar com a situação.

Passei também a ir "andar" uns minutos, nas minhas "pausas" anteriormente dedicadas aos cigarros... À volta do quarteirão, no parque de estacionamento, em qualquer sitio... Essas pausas estão relacionadas com o próprio processo de trabalho, em que avalio o que estou a fazer, para onde estou a caminhar, e que sentido isso faz. O cigarro era só o "marcador de ritmos" que assegurava a regularidade dos intervalos, não quero perder as vantagens dessas pausas, mesmo que perca a "campainha da nicotina" a dar horas.

Beber muita água ajuda...

48h

Ah!AH! Começa a baixar a coluna dos "cravings", devagarinho, mas começa a baixar!


Exercício físico


À medida que o ultimo cigarro vai ficando mais distante, o nosso corpo lida melhor com o exercício, e podemos ir aumentando a dose sem um esforço excessivo...

- 2.12 km a correr (neste caso a arfar, andar para recuperar o fôlego, e a voltar a correr novamente). 2,12 km em 18:02 minutos. Custou-me menos que ontem percorrer o dobro da distância em menos tempo. É espantoso como noto a diferença que 48h sem fumar fazem.

- 2000+ passos a passear o cão e a brincar com ele. Muitas pausas para ele cheirar "coisas"... 2077 passos durante 30:58 minutos








As 72h mais tarde: recuperar sabor e olfacto...


É uma boa altura para comer bem... por volta das 72h depois do ultimo cigarro a percepção do sabor e olfacto voltam ao normal. A capacidade de respirar e níveis de energia também recuperam para níveis de um não fumador...

50h

A velocidade a que o nosso corpo inicia a recuperação é em alguns aspectos surpreendente... e sente-se perfeitamente nos primeiros dias. É agradável sentir essas alterações.

… e a parte realmente mais complicada de deixar de fumar "está ultrapassada". Agora é dar tempo ao tempo, resistir à vontade de fumar que vai recorrentemente voltar a aparecer, mas com cada vez menos frequência…

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Deixar de fumar... terceiro dia...



Parei de fumar há dois dias e meio (quase três) e não estou neste momento particularmente "bem disposto" com a situação. Esta gaita está aperfeiçoada até ao limite da ciência para viciar. A nicotina é lixada. Neste momento passo tempo "a mais" a pensar nos cigarros. Como todos os vícios, não é particularmente agradável quebrar o ciclo de consumo.

Foi uma abordagem “parcialmente cold turkey", parar bruscamente de fumar, tal como já tinha feito há uns anos atrás (em que estive dois anos sem fumar). Mas isso é só metade da história, daí o ser “parcialmente cold turkey”. Tenho adesivos de nicotina e já usei dois em três dias, ainda não fui comprar pastilhas (e quero ver se não vou), a ideia não é deixar só de “inspirar fumo”, é mesmo também quebrar o consumo de nicotina... o meu plano é nesta primeira semana consumir 5 pensos de nicotina, o máximo um por dia, que corresponde a 1/3 do “recomendado”, durante menos 1/10 do período “recomendado” pelo fabricante dos ditos adesivos.

Estou a parar sozinho e sem apoio de ninguém. Estou a parar porque quero. Porque fumar é como dar marteladas nos dedos dos pés para sentir o alivio dos intervalos. O problema (desafio) não é entender o meu próprio vicio, perceber que o “prazer de fumar” está precisamente no “alivio” da privação de nicotina, é mesmo quebrar o ciclo.

Para ter alguma companhia neste processo, uso o meu iPhone e uma aplicação que conta as horas, cigarros que não fumei, dinheiro que não gastei, etc. Como factor de motivação tem “prémios” que eu escolho para metas temporais. Vou oferecer a mim próprio com esse dinheiro poupado “coisas”: um álbum no iTunes (demora três dias sem fumar), um jogo para a consola (demora mês e meio), etc.

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